O Concerto de Natal

facebook Instagram Youtube

Musicália

O Concerto de Natal




O Concerto de Natal
Catedral de Salzburgo (foto recente) | Fonte: Pixabay
 
Para lá do Requiem, composto no final da vida, há várias outras obras sacras de Mozart que despertam o interesse dos ouvidos mais atentos, na sua maior parte compostas ainda em Salzburgo, na segunda metade da década de 1770. São os casos da Missa da Coroação, das Vesperae solennes de Confessore… e também da Missa Longa, KV 262, que se diz «Longa» por contraposição às missae breves, que omitiam partes da missa por se destinarem a cerimónias litúrgicas menos opulentas. Neste caso não é, todavia, a duração que se «alonga», mas sim o aparato vocal e instrumental utilizado – juntam-se um coro misto, quatro vozes solistas e uma orquestra reforçada com tímpanos, trompetes e trombones


Concerto Grosso Op. 6/8 de A. Corelli, Fatto per la Notte di Natale | Orquestra de Câmara Eslovaca | Youtube
 
Arcangelo Corelli foi um compositor que, no final do século XVII, contribuiu decisivamente para a emancipação da música puramente instrumental. O (então) novo género musical tinha origem em cerimónias religiosas opulentas, eventos públicos de grande aparato, momentos celebrativos privados ou reuniões que juntavam pessoas pertencentes às classes ilustradas. Compreende-se assim que, mesmo quando ostenta padrões rítmicos dançáveis ou harmonias pungentes, predomine na música de Corelli um dramatismo solene, por vezes exuberante, mas nunca tão excessivo que abale uma postura formal e representativa. É bom exemplo disso o caderno Op. 6 e, em particular, o concerto Fatto per la Notte di Natale.

Joseph Le Gros (1739-1893), Diretor da Concert Spirituel a partir de 1777 | desenho de Charles-Nicolas Cochin | Fonte: BnF Gallica
 

Na origem, a expressão «Concerto Espiritual» designava os concertos que eram dedicados à música sacra, mas que tinham lugar fora dos locais de culto. Porém, o tempo deu-lhe novos significados. Já no século XVIII, passou a ser o nome de uma instituição parisiense que promovia a realização de concertos públicos memoráveis, designadamente entre os anos de 1725 e 1790.

 
 

  
 
 
O CONCERTO DE NATAL
 
Messias, de Händel, será talvez a mais famosa de todas as Oratórias. Datada de 1742, é música sacra que não se destina ao ritual religioso e que se assemelha a uma ópera em versão de concerto. Sem figurinos ou cenários, mas plena de teatralidade, na vez da previsível narrativa dramática em torno do nascimento, vida, morte e ressurreição de Cristo, surpreende-nos com uma meditação profunda em torno da sua figura. É nos nossos dias «O Concerto de Natal», por excelência. Todos lhe conhecem o célebre coro Aleluia.
 
**

 

    A oratória Messias foi estreada na cidade irlandesa de Dublin em pleno período de Páscoa. Ainda assim, o texto sobre o qual se desenrola a partitura permite adequar-se de igual modo à quadra natalícia. Consiste numa criteriosa seleção de escrituras bíblicas recolhidas no antigo e novo testamentos e divide-se em três partes. Na primeira evocam-se profecias e aclama-se a encarnação do Messias – preenche-se assim quase metade da obra, em plena consonância com a temática religiosa que substancia a celebração do Natal. Depois, na segunda parte, relata-se a Paixão e a Ressurreição de Cristo. Já nos derradeiros números, a terceira parte, comemora-se o triunfo: a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos. Com base nesta estrutura, a obra liberta-se dos constrangimentos do calendário litúrgico para se afirmar enquanto peça de concerto passível de ser tocada e cantada em qualquer altura do ano. E porque é da prática que nasce a tradição, certo é que nos mais variados cantos do mundo se tornou imperativo programar esta obra, precisamente, no Natal. Já passaram mais de dois séculos e meio, consolidou-se esse hábito, e persiste o mesmo entusiasmo da primeira vez que se ouviu.

    Händel já havia demonstrado ser capaz de satisfazer as preferências do público. Três décadas antes, quando se mudou para Inglaterra, era aí muito apreciado o estilo operático italiano. Händel «respondeu» com a ópera Rinaldo. Mas porque as modas são passageiras, quer a exuberância virtuosística vocal quer a precipitada sucessão de peças de grande aparato atingiram um ponto de saturação. Händel voltou a mostrar-se à altura do novo desafio. Após uma tentativa menos bem conseguida com a oratória Israel no Egipto, Messias iluminava-lhe o caminho. O pretexto foi um convite para visitar a capital irlandesa, a fim de apresentar um programa de beneficência em favor dos hospitais daquela cidade. Em poucas semanas estava terminada esta composição que tanto tem contribuído para que o seu nome se perpetue.

 

 

CONCERTO DE NATAL

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Coro Sinfónico Lisboa Cantat

Solistas: Joana Seara (soprano), Carolina Figueiredo (mezzo-soprano),

Marco Alves dos Santos (tenor), André Henriques (barítono)
Maestro do Coro: Jorge C. Alves
Maestro: Leonardo García Alarcón

 

Sábado, 16 de dezembro de 2017, Fórum Municipal Luísa Todi, Setúbal

 

Domingo, 17 de dezembro de 2017, Grande Auditório do Centro Cultural de Belém

 

Segunda-feira, 18 de dezembro de 2017, Coliseu Porto

 

 G. F. Händel Messias, HWV 56

 

 
      
Mosaico do Século VI, Basílica de Sant'Apollinare Nuovo em Ravenna (Itália) | Fonte: Wikimedia Commons
Enquanto exemplo emblemático do género Oratória, Messias de Georg Friedrich Händel tornou-se numa das peças do repertório orquestral e coral mais consensuais de toda a História da Música. A Oratória partilha muitas características com a Ópera. Apresenta solistas cantores à frente de uma orquestra e de um coro. Para lá dos tradicionais palcos operáticos, pode ser apresentada em igrejas ou, mais frequentemente, em salas de concerto


Beethoven em 1801 | Pintura de Carl Traugott Riedel | Fonte: Wikimedia Commons
 
Ao escutar a Primeira Sinfonia de Beethoven logo ressaltam duas ambiguidades. Por um lado, distingue-se um respeito devoto pelas matrizes clássicas da sinfonia, mas «perturbadas» por rasgos criativos inusitados. Por outro, revela-se uma faceta da personalidade do compositor bastante mais comedida do que aquela que lhe é vulgarmente associada – impetuosa e excessiva. Estas dicotomias resultam de ser uma obra charneira que permite vislumbrar a essência da transição do período clássico para o período romântico. É também um gesto de afirmação por parte de um músico que estava consciente de estar a desflorar um novo capítulo da sua própria carreira.


Exposição no Louvre em 1787 | Desenho de Pietro Antonio Martini (1738-1797) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Quando lembramos a importância de Joseph Haydn no seu tempo, logo vêm à ideia as célebres oratórias A Criação e As Estações, de 1798 e 1801. Também as célebres doze Sinfonias de Londres, escritas poucos anos antes. Já as Sinfonias de Paris são menos referidas. Cabe, porém, lembrar que o sucesso dessas seis sinfonias, datadas de meados da década de 1780, foi determinante para a internacionalização da carreira de um compositor que até então se mantivera discreto, ao serviço do Príncipe de Esterhásy. A Sinfonia N.º 84 é uma delas. Sendo a terceira, foi das últimas a serem compostas. Conhece-se pelo nome In nomine Domini porque o início se parece com uma melodia de cantochão, Em nome do Senhor.